Desde que a sociedade brasileira consagrou em sua Constituição e na Legislação a ideia do Sistema Único de Saúde (SUS), seus princípios finalísticos, que são a universalidade, a equidade e a integralidade, vinham sendo consensuados por uma maior participação social e pelo crescimento da consciência sanitária no país. Desde então houve notáveis avanços, garantidos especialmente pelo aumento progressivo do controle social e da descentralização. Entretanto, mesmo com esses avanços jurídico-institucionais, persistem insuficiências e problemas que colocam ao SUS ainda um grande desafio: consolidar um modelo de atenção a saúde focado na qualidade de vida.

Há uma nítida sensação de que o paradigma que ainda norteia o modelo de intervenção na saúde – representado pela medicalização, centrado no hospital e crescentemente dependente de tecnologia não pode dar conta dos desafios propostos. Neste ínterim verificou-se que as metas propostas de “saúde para todos no ano 2000”, não foram atingidas. Os valores e princípios expressos na Carta de Ottawa para a Promoção da Saúde, cujos compromissos coincidem com os ideários do Sistema Único de Saúde brasileiro continuam desafiando a contemporaneidade.

No Brasil, a reorganização da atenção básica – materializada pela implantação das equipes da saúde da família, onde a presença dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) faz a diferença, acumulou conhecimentos e experiências colocando em evidencia um conjunto problemas a serem enfrentados e superados no processo de desenvolvimento do SUS.

É chegado o momento onde faz-se necessário identificar as ricas experiências espalhadas por todo o Brasil e fazer dessas, ponto de encontro de lições aprendidas e trocas de possibilidades – para a consolidação de um novo modelo de atenção à saúde no Brasil – onde a família seja o alicerce e a promoção da saúde, a possibilidade de resgatar o sentido ampliado de saúde como qualidade de vida.

Nessa direção, é destacada a importância que o fortalecimento e a reorganização da atenção básica assumiram no contexto da política de saúde nacional nas últimas décadas. No entanto, parte de sua agenda – especificamente a de promoção da saúde, portanto, das determinações sociais em saúde – precisa ser reafirmada para que tenha lugar no contexto de transformações sociais mais gerais e para que se possa ter, por um lado, o incremento esperado nos investimentos e na qualificação dos profissionais para atuarem nesse nível de atenção, e, por outro, adequações e/ou melhorias na gestão e na oferta de serviços e de ações intersetoriais de forte apelo para a promoção da saúde de sujeitos e de coletividades.

Portanto esta pesquisa justifica-se pela necessidade de aprofundar os estudos e pesquisas sobre os sistemas e serviços universais de saúde, organizados segundo a lógica dos valores e princípios da Atenção Primaria à Saúde (APS), orientados às práticas de promoção da saúde desenvolvidas pelas equipes da Estratégia Saúde da Família nos complexos contextos políticos, sócios, culturais e ambientais dos seus territórios de atuação.